Em 1928, Tarsila do Amaral pintou Abaporu e deu a tela de aniversário a Oswald de Andrade, então seu marido. A figura de cabeça pequena e pés grandes, sentada ao lado de um cacto, chamou a atenção do escritor e passou a inspirar novas ideias sobre a arte brasileira.
A obra se tornou uma das imagens mais conhecidas do Modernismo no Brasil. Ela não resume todo o movimento, mas ajuda a entender como Tarsila combinou referências internacionais com temas e formas ligados à sua experiência no país.
Quem foi Tarsila do Amaral?
Nascida em Capivari, no interior de São Paulo, em 1886, Tarsila estudou arte no Brasil e em Paris. Durante a Semana de Arte Moderna de 1922, ela estava na França e não participou do evento. Ao voltar, aproximou-se do grupo modernista e integrou o Grupo dos Cinco com Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade.
Em Paris, Tarsila conheceu as vanguardas europeias e estudou caminhos ligados ao Cubismo. Ela transformou essas referências em uma linguagem própria, com cores intensas, formas simplificadas e temas brasileiros. Essa busca também faz parte da história da arte moderna.
A trajetória de Tarsila ocupa lugar importante entre as artistas femininas que marcaram a arte brasileira. Suas escolhas mudaram ao longo do tempo, por isso é útil olhar para cada fase sem reduzir sua produção a uma única tela.
O que aparece em Abaporu?
A pintura mostra uma figura humana sentada, com braços e pés grandes e uma cabeça pequena. Ao fundo, aparecem um cacto e um sol. A escala incomum dos membros conduz o olhar para o corpo e para a relação entre a figura e a paisagem. A cena é simples, mas não oferece uma explicação única.
O título vem de palavras do tupi e costuma ser traduzido como “homem que come gente”. Essa referência linguística não transforma a pintura em obra indígena nem representa, sozinha, a diversidade da arte indígena brasileira. O sentido da imagem depende do contexto modernista em que Tarsila a criou.
Como a obra se liga à Antropofagia?
Oswald de Andrade relacionou a pintura à ideia de antropofagia cultural. Em maio de 1928, publicou o Manifesto Antropófago, que propunha receber influências de fora e transformá-las em algo próprio. A metáfora era cultural, não literal. Ela respondia ao debate sobre como criar uma arte brasileira sem apenas copiar modelos europeus.
Abaporu marcou a fase antropofágica de Tarsila, mas não foi sua única obra importante. Em Antropofagia, de 1929, a artista reuniu figuras e elementos que retomam pesquisas visuais anteriores. Comparar as telas ajuda a perceber como ela mudou formas, cores e temas ao longo da carreira.
Onde está Abaporu hoje?
A pintura integra a coleção do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, o MALBA, na Argentina. Sua presença em um museu latino-americano amplia a conversa sobre a circulação da arte brasileira e sobre a importância da obra para a história do Modernismo.
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Sobre o autor
MarianaDiretora de Galerias de Arte
Diretora de galeria com mais de 15 anos de experiência no mercado de arte. Especialista em curadoria, formação de acervos e na valorização de artistas brasileiros, conduz projetos expositivos com um olhar sensível e estratégico, aproximando obras, artistas e público.