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Rita Schultz: O olhar que habita em nós

M Mariana
rita Schultz

Rita Schultz transforma o retrato em um encontro entre presença e memória. Em sua produção, o olhar não funciona apenas como detalhe anatômico: ele concentra a expressão de pessoas e animais, cria proximidade com o observador e desloca a pintura para além da semelhança física.

Esse eixo orienta a exposição "O olhar que habita em nós", na Galeria Ampliart. A mostra reúne retratos realistas em óleo sobre tela e permite acompanhar como luz, sombra, textura e composição constroem uma experiência de observação lenta, mais próxima da convivência do que do registro.

Quem é Rita Schultz?

Rita Schultz é artista visual, escritora e professora de Línguas e Literatura, nascida em Poços de Caldas. Sua trajetória combina formação em Letras, especialização em Psicopedagogia e prática artística dedicada ao retrato, com trabalhos em grafite, carvão, lápis de cor e pintura a óleo.

A página da artista Rita Schultz registra que ela estudou desenho com Antonieta Prézia e participou de exposições no Salão Bruno Filisberti, no Sesc Poços de Caldas e nas Thermas Antônio Carlos. Em 2019, recebeu o primeiro lugar na categoria desenho do Concurso Nacional de Artes Plásticas e Fotografia com a obra Menina sem Terra, resultado documentado pela Prefeitura de Poços de Caldas.

Sua atuação pública, porém, é anterior a esse prêmio. Uma edição de 2003 do jornal Lavras News preservada no acervo da UFLA noticiou uma exposição de óleos sobre tela com paisagens mineiras e o lançamento do livro de poemas Uma Mulher. O registro ajuda a compreender que pintura e escrita não são etapas isoladas, mas linguagens que convivem há décadas em sua produção.

O que é a exposição: O olhar que habita em nós?

O olhar que habita em nós é uma exposição de retratos realistas em óleo sobre tela, dedicada à presença de figuras humanas e animais. Em vez de organizar as obras apenas pela identidade dos retratados, a mostra aproxima diferentes seres pela capacidade de estabelecer uma relação silenciosa com quem observa.

A proposta curatorial valoriza a beleza clássica e o domínio técnico sem reduzir o retrato a uma demonstração de habilidade. Conforme a reportagem de apresentação da mostra, as pinturas são construídas com camadas de tinta e velaturas, enquanto luz, sombra e textura reforçam tanto a aparência quanto a dimensão subjetiva de cada personagem.

Nesse sentido, a mostra se insere em uma tradição da exposição de arte entendida como construção de relações entre obras, espaço e público. A sequência dos retratos importa porque modifica a percepção: um rosto humano pode preparar o olhar para a expressão de um animal, e o percurso seguinte pode devolver ao visitante uma leitura renovada da figura humana.

Para que serve o olhar nos retratos de Rita Schultz?

O olhar serve como centro expressivo e como ponto de contato entre a obra e o público. Ele direciona a leitura do rosto, sugere estados internos e dá ao retratado uma presença que não depende de movimento ou narrativa explícita. Essa função é uma interpretação crítica baseada na recorrência visual descrita para a mostra.

Em um retrato realista, a precisão pode conduzir o espectador a procurar apenas fidelidade. Aqui, a atenção aos olhos muda essa expectativa. A semelhança continua relevante, mas passa a sustentar perguntas sobre identidade, vulnerabilidade e reconhecimento. A pintura deixa de afirmar somente “quem é” a figura e passa a sugerir “como ela está diante de nós”.

A inclusão de animais amplia esse efeito. Quando humanos e outros animais recebem o mesmo cuidado pictórico, a hierarquia habitual do retrato é suspensa. O observador é convidado a perceber postura, direção do olhar e tensão corporal como sinais de individualidade, sem transformar essa aproximação em equivalência simplista.

Como funciona o realismo na pintura da artista?

O realismo de Rita Schultz funciona pela construção gradual de volume, luminosidade e textura. Camadas de tinta e velaturas permitem modular transições delicadas, enquanto contrastes entre luz e sombra definem a forma. O resultado depende menos do excesso de detalhe do que da coerência entre desenho, valores tonais e matéria.

A velatura, aplicada como uma camada fina e relativamente transparente, pode aprofundar sombras, ajustar temperatura de cor e preservar passagens anteriores. Em retratos, esse procedimento favorece nuances de pele, pelos e tecidos. Seu valor técnico está na capacidade de acumular pequenas decisões sem achatar a superfície em uma única aplicação opaca.

Contudo, técnica não deve ser confundida com neutralidade. O enquadramento, a incidência da luz e o grau de proximidade do rosto são escolhas interpretativas. Mesmo quando a anatomia é convincente, a imagem expressa uma posição da artista sobre o que merece ser visto e sobre quanto tempo o espectador precisa dedicar a esse encontro.

Quais temas aparecem por trás das fisionomias?

Memória, identidade e presença são os temas que se tornam mais visíveis por trás das fisionomias. Eles não surgem como ilustrações literais, mas na relação entre expressão, silêncio e duração. Cada rosto preserva informações concretas e, ao mesmo tempo, mantém uma parcela que não pode ser totalmente explicada.

A ideia de memória aparece quando o retrato é entendido como vestígio de uma relação. A obra conserva traços, mas também a experiência de observá-los. Identidade, por sua vez, não se limita ao reconhecimento do modelo: ela se forma no modo como postura, luz e olhar singularizam aquela presença.

Essa leitura encontra um paralelo útil na história do autorretrato, em que a imagem de uma pessoa raramente se reduz à cópia de sua aparência. Embora a exposição não seja apresentada como uma série de autorretratos, a tradição ajuda a perceber como toda representação de um rosto envolve escolhas sobre caráter, tempo e subjetividade.

Como pintura e escrita se encontram na trajetória de Rita Schultz?

Pintura e escrita se encontram na atenção dada à imagem, ao ritmo e à experiência interior. Não é possível afirmar que uma linguagem explique a outra, mas a coexistência das duas práticas oferece uma chave consistente para ler o interesse da artista por retratos carregados de silêncio e sugestão.

O perfil literário da autora registra formação em Letras, participação na Academia Poços-caldense de Letras e livros de poesia e ficção. Em seus textos disponíveis publicamente, rosto, olhar, sombra e cor aparecem como imagens recorrentes. Essa proximidade de vocabulário não prova uma intenção pictórica específica, mas revela um campo de interesse que atravessa sua produção.

Para o observador, essa dimensão literária recomenda uma postura menos apressada. O retrato pode ser lido como uma composição visual que sugere, sem fechar, uma narrativa. A pintura apresenta evidências concretas, como a direção dos olhos e a modelagem da luz, enquanto o sentido permanece aberto à experiência de cada pessoa.

Onde visitar O olhar que habita em nós?

A exposição pode ser visitada na Galeria Ampliart, em Poços de Caldas, com entrada gratuita, até 2026-10-17. A mostra ocupa o Espaço Turmalina, na Rua Paraná, 487, bairro Funcionários. A programação divulgada informa visitação de terça a sábado, das 10h às 19h.

Como horários e condições podem mudar, convém confirmar os dados na página oficial da exposição antes do deslocamento. As obras permanecem disponíveis para aquisição durante o período da mostra, informação relevante para colecionadores, arquitetos e visitantes interessados em incorporar um retrato ao seu acervo ou projeto.

Como observar os retratos durante a visita?

A melhor forma de observar os retratos é alternar distância, aproximação e tempo de permanência diante de cada obra. Esse percurso ajuda a separar o impacto inicial da análise técnica e permite perceber como os detalhes participam de uma presença mais ampla.

  • Comece pela composição: observe enquadramento, fundo e posição do rosto antes de se deter nos olhos.

  • Mude a distância: de longe, avalie volume e contraste; de perto, examine camadas, bordas e texturas.

  • Compare sem hierarquizar: identifique o que muda e o que permanece entre retratos humanos e animais.

  • Repare na luz: veja quais áreas revelam a figura e quais preservam ambiguidade.

  • Retorne a uma obra: uma segunda observação costuma revelar relações que o primeiro impacto encobriu.

Quem pensa em adquirir uma peça pode complementar a visita com critérios práticos sobre documentação, procedência, conservação e coerência do conjunto. O guia da galeria sobre como começar uma coleção de arte oferece um ponto de partida para transformar afinidade estética em uma decisão mais consciente.

Por que a obra de Rita Schultz merece uma leitura atenta?

A obra de Rita Schultz merece atenção porque combina competência técnica com uma investigação sensível da presença. Seus retratos não dependem apenas do virtuosismo realista: eles usam esse domínio para sustentar uma experiência de encontro, na qual a figura observada também parece devolver o olhar.

Essa reciprocidade é o aspecto mais fértil da exposição. A imagem mantém distância suficiente para preservar o mistério do retratado e oferece proximidade bastante para mobilizar memória e empatia. O título O olhar que habita em nós ganha, assim, uma dimensão dupla: refere-se ao olhar representado na tela e à capacidade de ver que cada visitante leva consigo.

Ao reunir pessoas e animais sob o mesmo cuidado pictórico, a mostra também questiona hábitos de atenção. O realismo deixa de ser apenas uma técnica de reprodução e se torna uma disciplina do olhar. Ver com precisão, nesse contexto, significa reconhecer detalhe sem perder a totalidade e aproximar-se sem esgotar o outro em uma explicação.

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Sobre o autor

Mariana

Diretora de Galerias de Arte

Diretora de galeria com mais de 15 anos de experiência no mercado de arte. Especialista em curadoria, formação de acervos e na valorização de artistas brasileiros, conduz projetos expositivos com um olhar sensível e estratégico, aproximando obras, artistas e público.